A chacina que matou nove pessoas em Colniza, a 1.065 km de Cuiabá, neste ano, não prejudicou em nada a atuação das madeireiras de propriedade do empresário Valdelir João de Souza, acusado de ser o mandante do massacre, ocorrido em abril deste ano. Em um relatório divulgado nesta semana, a ONG Greenpeace afirma que as duas empresas dele continuam funcionando em pleno vapor, apesar do dono estar foragido.

A informação, segundo o relatório denominado “Madeira manchada de sangue”, da organização ambientalista, foi constatada durante vistoria de campo, realizada em julho de 2017 na região da divisa entre Mato Grosso e Rondônia.

Polaco Marceneiro, como é mais conhecido, teve a prisão decretada em maio deste ano após o Ministério Público Estadual (MPE) concluir que ele mandou matar os moradores da região porque estava interessado na exploração ilegal de madeira na região e denunciá-lo. No entanto, nenhum dos cinco acusados do crime está preso.

Valderli é proprietário da Madeiras G.A. em Colniza, e da Madeireira Cedroarana, localizada em Machadinho d’Oeste, no interior de Rondônia. As empresas atuam na exportação de madeira para vários países, como Alemanha, Estados Unidos, França, Holanda, Dinamarca, Itália, Bélgica e Japão.

Inclusive, de acordo com o relatório, no dia 19 de abril, data em ocorreu a chacina em Colniza, a Madeireira Cedroarana embarcou cargas de madeira para o exterior, algumas para a Europa, em navios que saíram do Porto de Paranaguá, no Pará.

Enquanto as investigações sobre a chacina seguiam, as empresas continuavam exportando, sem nenhuma interferência.

Segundo o Greepeance, muito antes do massacre em Colniza, já havia sinais claros sobre a ilegalidade da madeira processada pela Madeireira Cedroarana e cita as multas que a empresa deixou de pagar. “Desde 2007, a empresa acumulou R$ 565.900 em multas não pagas por estocagem e comercialização de madeira ilegal”, diz.

Além de Valdelir João de Souza, são acusados da chacina o ex-sargento da Polícia Militar de Rondônia Moisés Ferreira de Souza, Ronaldo Dalmoneck, Pedro Ramos Nogueira e Paulo Neves Nogueira. Os dois últimos são tio e sobrinho.

‘Futuro sombrio para a Amazônia’

Para a ONG, os conflitos agrários na Amazônia são preocupantes, já que os números só crescem e avalia que a chacina de Colniza foi só um exemplo da monstruosidade ocorrida no campo. “O massacre de Colniza, por mais monstruoso/hediondo que tenha sido, foi apenas um exemplo chocante de uma realidade que deve se agravar”, diz.

Dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT), apontam que 61 assassinatos em conflitos no campo pelo Brasil de janeiro a setembro de 2017, mesmo número registrado em todo o ano de 2016. Destes, 49 mortes, que correspondem a 77% do total ocorreram na Amazônia Legal.

A preocupação aumenta diante de algumas medidas do governo federal. A ONG ambientalista critica, por exemplo, “a anistia aos que desmataram ilegalmente, o regime de licenciamento ambiental para grandes obras de infraestrutura corre o risco de ser enfraquecido e as áreas protegidas vêm sendo reduzidas em uma escala sem precedentes, entregando a Amazônia nas mãos de grileiros de terras”.