Doze fazendas na região de Comodoro, no oeste de Mato Grosso, que pertenceram à empresa Boi Gordo irão a leilão no dia 14 de dezembro com um deságio de 90%. Avaliadas, inicialmente, em R$ 177 milhões, as fazendas já têm uma proposta de quase R$ 18 milhões, mas devem ir a leilão por decisão do juiz de Direito da 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo), Marcelo Sacramone, para que outros proponentes possam dar seus lances.

Para o juiz, a decisão garante que “a melhor proposta prevaleça”. “Determino a publicação de novo leilão, com valor mínimo da proposta oferecida nos autos. Caso não sejam dados outros lances, o proponente será dado como vencedor”, determinou Sacramone.

Entre as áreas que compõem o bloco de 53 mil hectares — de alto potencial produtivo — estão terras com cabeças de gado e cultivo de soja e milho, que podem ser pagas com a renda das propriedades, em cinco parcelas semestrais. “A habilitação para participar do leilão híbrido — presencial e on-line —, que teve início nesta quinta (16), exige uma caução de R$ 200 mil. O arrematante deve pagar, em até 48 horas, 20% do valor do lance mais os 4,5% de comissão. Depois vêm as parcelas semestrais”, explica o leiloeiro oficial Cezar Augusto Badolato, da Lut Leilões, empresa encarregada dos leilões da massa falida da Boi Gordo desde março de 2016.

Mudança de estratégia

Uma mudança recente de estratégia nos leilões dos bens da empresa passou a atrair o interesse de compradores, o que animou os credores. Com a rapidez nas imissões de posse determinadas pela Justiça e baseadas no novo Código de Processo Civil, além de deságios mais atrativos e o fracionamento da área que reunia as fazendas do grupo, leiloadas individualmente a partir de setembro de 2016, proprietários de fazendas no entorno e até investidores de todo Brasil passaram a fazer propostas e a dar lances, alguns deles superando em mais de 100% o valor estipulado como lance inicial.

A modalidade híbrida também foi chamariz para a expressividade e abrangência das hastas. “O leilão on-line e presencial consegue atingir um público de interessados ainda maior e traz mais transparência nas execuções e agilidade aos processos”, comenta o leiloeiro da Lut Leilões.

“Negócio da China”

Com uma despesa a pagar maior que a receita, a Boi Gordo faliu em 2004. Antes, em 1996, iniciou o processo de abertura de investimentos em gado com a promessa de que, após 18 meses, o dinheiro da venda do boi engordado renderia 42% de lucro. Foram mais de 30 mil investidores, hoje credores, que apostaram na empresa e foram lesados em R$ 4,2 bilhões.

O promotor de Justiça que atua no caso, Eronides Santos, da Promotoria de Justiça de Falência do MP-SP (Ministério Público de São Paulo), lembra que para corroborar a fraude que atingiu tantos investidores, o grupo “adotou uma estratégia de marketing multinível, com inserções em toda mídia, inclusive com mensagens subliminares”.

Com a proposta de engorda do boi e de lucros estratosféricos, o grupo alegava que o gado tinha genética sofisticada, resultado de estudos científicos. “O trabalho para recuperar esses ativos ainda continua, mas que sirva de alerta para que, antes de investir, os interessados pesquisem e investiguem a idoneidade do investimento antes de colocar altos valores em negócios considerados inovadores”, alerta Santos.

Embora o cenário político e econômico seja desfavorável, a Boi Gordo é a primeira empresa do ramo que ressarcirá os seus credores, diferentemente de exemplos semelhantes, como Gallus e Arroba. “Foram vendidas mais de 30 fazendas distribuídas por 130 mil hectares, muitas delas por valores acima da avaliação, tendo sido levantados R$ 470 milhões”, lembra o administrador judicial da massa falida, Gustavo Sauer.

Com esse dinheiro já foram pagos integralmente os credores trabalhistas — cerca de R$ 75 milhões. No início do próximo ano serão pagos todo o passivo tributário e os credores com garantia real.

Os investidores em contratos da Boi Gordo também serão pagos no início de 2018 e a estimativa atual é que recebam cerca de 10% do valor atualizado dos seus créditos.

Do lado dos credores, a expectativa para o leilão do dia 14 de dezembro é de que se alcance o dobro do valor do lance inicial, de R$ 18 milhões. “As propriedades são boas e estão muito baratas, e esta será a última oportunidade que os interessados terão para comprar essas terras”, diz Sauer.