Com investimentos de R$ 450 milhões, a 1ª usina especializada na produção de etanol a base de milho, inaugurada em Lucas do Rio Verde (a 334 km de Cuiabá) na sexta-feira (11), coloca Mato Grosso em condição de iniciar uma concorrência com grandes produtores mundiais de etanol a partir do cereal, como os Estados Unidos. Pode parecer pretensão, mas a previsão é que a produção dobre já no próximo ano e devido à abundância do grão no Estado, novos investidores tendem a se atrair pelo novo nicho da agroindústria.

Para dobrar o volume produzido e chegar a quase 500 milhões de litros ao ano, os investimentos chegarão a R$ 700 milhões. Porém, nem tudo são flores no caminho, já que a FS Bioenergia tem diante de si um grande desafio: superar as dificuldades logísticas para escoar a produção. “Os Estados Unidos tem uma tradição de etanol de milho, que já vem de algumas décadas. Aqui no Brasil é uma novidade. Hoje temos algumas usinas, que têm o que nós chamamos de sistema flex, usam basicamente o milho na entressafra da cana, que dura apenas 3 ou 4 meses. E aqui em Mato Grosso nós já temos esse tipo de unidade industrial flex. Já esta é diferente porque não tem cana. Esta é 100% milho. É quase como se eu estivesse vivendo na realidade americana”, explica o presidente da FS Bioenergia, Henrique Ubrig.

Pioneira na produção de etanol de milho no país, a unidade industrial tem a sua tecnologia baseada no modelo norteamericano. Com a diferença que lá, o funcionamento da indústria é a base do vapor proveniente do processamento a gás. Nesta 1ª unidade brasileira, a empresa utiliza a biomassa. Centrada no polo do agronegócio, a empresa enxerga um futuro promissor para o produto no país. “Somos pioneiros, mas provavelmente virão outros depois disso, e a gente vai abrir portas para muita gente. É isso que a gente quer, que traga uma consequência para o curto, médio e longo prazos”, pontua Hubrig.

Além do etanol, a usina produzirá outros derivados do milho, como as proteínas para alimentação animal, conhecidas como DDGs (sigla em inglês para “Dried Distillers Grains with Solubles”) e o óleo de milho, ambos com alto valor agregado, exatamente o que a agroindústria mato-grossense precisa. “O segredo aqui é estar perto da matériaprima. Hoje nós temos o milho a menos de 50 km. Isso é importantíssimo”, afirma Ubrig, destacando que a maior parte do milho viaja quilômetros para chegar a outros países, sendo que apenas 4 milhões de toneladas ficam no mercado interno.

O vice-presidente, Rafael Abud, complementa que a empresa viu justamente na dificuldade para o escoamento da produção local a oportunidade para a realização do investimento, colocando a planta nas proximidades da produção de milho. “Hoje, o milho viaja cerca de 2 mil km para chegar ao porto para exportação. A saca custa cerca de R$ 11 na região e se paga cerca de R$ 14 para levar ao porto. Então, o frete é mais caro do que o próprio milho. Pegando essa oportunidade é um ganha-ganha para todo mundo porque você multiplica valor na cadeia”, analisa Abud.

Ele destaca que o ganho é para toda a cadeia econômica, desde o produtor que passa a contar com mais uma opção para comercialização, para o pecuarista que passa a contar com a oferta de proteína animal na região, para a indústria que tem disponível grande oferta de produto nas proximidades, e a sociedade, por meio da arrecadação de impostos de toda a cadeia produtiva. Segundo Abud, já há um movimento para se levar confinamento de bovinos para a região.

Com o aumento da produção de etanol há expectativa de redução de preço do litro do produto nas bombas, já que hoje concentra um dos preços mais altos de Mato Grosso, com valor médio de R$ 2,51 na última semana, segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), chegando a custar até R$ 2,79 em Sorriso, município próximo de Lucas do Rio Verde. Mas, a produção não ficará restrita à localidade.

A FS Bioenergia pretende exportar o produto para outros estados e, futuramente para outros países. “Nosso olhar de mercado vai ser o Centro-Oeste porque está aqui. E vai subir em direção ao Norte”, informa Henrique Ubrig. Um dos empecilhos é a logística, já que Mato Grosso só tem saída por meio terrestre, o que dificulta a expansão para outras regiões e para chegar aos portos. A produção de etanol em Mato Grosso cresceu 2,5% este ano, saindo de 454,936 milhões de litros no 1º semestre de 2016 para 466,662 milhões (l) este ano, enquanto o consumo de etanol hidratado se manteve no mesmo patamar do ano passado, de 292 milhões de litros, segundo dados da ANP.

Para a empresa, que pretende dobrar a produção, o mercado ainda é o principal desafio. “Nesse momento, a maior barreira seria mercado, porque o Centro-Oeste não é um grande consumidor. Ainda temos uma demanda baixa aqui”, pontua Ubrig.

Os produtores de milho do Estado veem com bons olhos a chegada de uma empresa do porte da FS Bioenergia em Mato Grosso, sendo a pioneira, mas que pode abrir as portas para muitas outras. O vice-presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho), Glauber Silveira, destaca que com a chegada da usina, a produção de etanol a base de milho em Mato Grosso deve consumir, somada a outra usina, 1,5 milhão de toneladas.

Ele projeta que dentro dos próximos 5 anos este número pode chegar a 4 milhões (t), ampliando o consumo interno do produto que, embora seja pouco dentro da grande produção do cereal, agrega valor ao produto e à região. “O interessante é que é uma alternativa que no futuro tende a ser importante. Quanto mais a gente puder agregar valor dentro do Estado melhor. Se em 10 anos, a gente estiver consumindo 10 milhões de toneladas em Mato Grosso, imagina a capacidade de geração de emprego e agregação de valor. Quando você transforma esse milho em etanol aqui você tem 4 vezes mais valor”.

Segundo Glauber Silveira, há várias empresas interessadas em produzir etanol de milho em Mato Grosso, mas elas esbarram em dificuldades. “É preciso ter mais usinas, mas para isso é preciso ter uma tributação adequada. Hoje, o etanol de milho precisa ter uma tributação equiparada à do etanol de cana. Não dá para você montar uma usina e pagar 25%. É uma inovação, uma coisa nova que precisa ter uma diferenciação, a gente precisa agregar valor ao produto”, critica, dizendo que esta é uma das demandas junto ao governo.

O ministro da Agricultura, Blairo Maggi, destacou durante discurso na inauguração da usina, que a unidade ajudará a aliviar os bolsos dos produtores da região. “Empreendimento como este é importante na medida em que ele vai enxugar do mercado 600 mil toneladas por ano. Se nós tivéssemos 10 plantas dessas, tirava 6 milhões de toneladas do mercado. É praticamente o que o governo ajuda todos os anos para não deixar que os produtores padeçam com dinheiro. Estamos falando de dar sustentação aos preços, para que no ano seguinte ele continue produzindo”.