3e63a0fac34fb65c8790e05cad866ebb“Bandido bom é bandido morto”. Assim parte da população reagiu à morte de André Luiz de Oliveira, 27. Horas antes, o rapaz havia matado o policial militar Elcio Ramos Leite, 29.

Especialistas afirmam que esse tipo de pensamento é resultado de uma reação em cadeia, onde uma situação acaba gerando diversas consequências. Acontecimentos como esse, no início da semana, refletem a crise enfrentada pela sociedade no que diz respeito aos valores éticos, morais e religiosos, e também no controle social da polícia e do judiciário, conforme analisa o coordenador do Núcleo de Estudos da Violência e Cidadania da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Naldson Ramos.

Combinado a isso, tem a questão do sentimento de insegurança ocasionado pela criminalidade que não consegue ser vencida pelo poder público. “A sociedade se sente órfã da guarda da liberdade e da segurança. Então, o que deveria ser condenado passa a ser valorizado e esse tipo de pensamento prevalece sobre o outro. Bandido bom é bandido preso”, frisa.

Ideias como essas, inclusive, podem acabar gerando ações de violência extrema, como linchamentos.
Para o presidente do Conselho Estadual dos Direitos Humanos, Teobaldo Witter, a insegurança está atrelada à ineficiência do Estado na aplicação da Justiça e das leis falhas. Isso reforça o pensamento sobre a recompensa do crime, por parte de quem o comete, e de impunidade, por aqueles que são vítimas, que sofrem também com a indiferença por parte do poder público, passando a serem apenas mais uma ocorrência. É um problema que expõe ainda a falha nas leis que são criadas justamente pelo estado. “O que vem a seguir é o sentimento de vingança ou de desejo de execução sumária, como o ‘olho por olho, dente por dente’. O cidadão que se sente prejudicado quer acabar com o algoz. Vê que essa é a solução”, destaca.

Witter ressalta que o Estado tem a obrigação de limitar os conflitos sociais, podendo, para isso, usar a força. Assim, deve agir proativamente para que não aconteçam situações como a desta semana. Para tanto, é preciso preparar os profissionais devidamente. “Existem aqueles que têm um bom preparo, mas outros não e acabam resultando em situações como essa onde duas vidas foram perdidas”.

Abordagem, emoção e excessos

Com relação ao trabalho policial, Naldson Ramos que atua também na formação dos
militares, reitera que durante o curso é ressaltado que uma abordagem deve tentar, ao máximo, preservar as vidas envolvidas, tanto as dos policiais quando a dos suspeitos. “É lamentável o que aconteceu, um policial foi morto durante o trabalho, é um risco que se corre, mas não se deseja isso a nenhum profissional. Todavia, tem que se apurar se houve excesso daqueles que foram atrás do suspeito”.

Ramos aponta ainda que é trabalhada também a questão emocional diante de uma situação de risco e grande pressão. Naquele momento, estava envolvido ainda o sentimento de perda, o que acendeu a emoção de quem estava ali. “É preciso fazer uma avaliação do resultado da ação. Havendo culpa, deve-se rever os manuais de conduta e outras questões para evitar novas ocorrências nesse sentido”, destaca.

A investigação do caso será acompanhada pelo Conselho Estadual dos Direitos Humanos, segundo o presidente Teobaldo Witter. “Acompanharemos pelos dois lados, tanto pela morte do policial, quanto pelo suspeito, ver o que será feito com relação a isso, afinal, foram duas vidas perdidas”.

Com relação ao sigilo dos trabalhos investigativos que serão realizados com relação às mortes e também aos armamentos apreendidos, Witter comentou que será questionado o motivo da determinação. Contudo, o presidente reiterou que compreende ser um dispositivo legal disponível para a polícia.