Mulheres são espancadas por não passar roupa ou se negar a fazer sexo, lamenta promotora

Espancamentos por conta da comida que não estava pronta ou por se negar a fazer sexo são casos corriqueiros.

394

Durante todo o tempo em que atua no Núcleo de Enfrentamento da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de Cuiabá, a promotora de Justiça Lindinalva Rodrigues diz ter visto os mais escabrosos casos envolvendo a violência contra a mulher. Espancamentos por conta da comida que não estava pronta ou por se negar a fazer sexo são casos corriqueiros, segundo a promotora, que lamenta que episódios assim ainda aconteçam em pleno século 21.

“Temos 15 mil processos na violência doméstica. As mulheres apanham hoje, no século 21, porque o marido chega em casa e a comida não está pronta. Ou então porque as crianças tomaram todo o suco e não deixaram para o homem. Por vezes, apanham de cinto por não ter passado a roupa do marido para ele trabalhar. Existem até as que são puxadas pelo cabelo e espancadas pois se negam a fazer sexo da forma e do jeito que o homem quer”, revela a promotora em entrevista exclusiva.

Os abusos não param por ai, segundo Lindinalva: “Nós temos casos de mulheres arrastadas pelo cabelo porque se negam à prática sexual daquela forma, e naquele dia, e naquele momento que o companheiro deseja. Num dado momento elas denunciam, mas denunciam quando não aguentam mais a inserção de legumes, objetos, coisas que elas não aceitam, na vagina, no ânus, coisas assim que não fazem parte daquilo que elas aceitam como natural. Já tivemos casos de mulheres que se negam a ter relação sexual com o marido que tiveram parte do rosto arrancada a dentadas”, conta.

Para a promotora, a mulher ainda tem que acumular as funções, já que – na maioria dos casos – não recebe a ajuda do parceiro: “Quando chegam em casa do trabalho, as mulheres ainda tem de cuidar da casa e dos filhos. A mulher ainda padece com a culpa quando algo não da certo, pois está trabalhando fora e não tem tempo para nada. Antigamente as mulheres eram coisificadas, como objetos. Hoje, elas apanham pois tentam colocar seus direitos em prática, não aceitam ser mandadas”.

“A mulher demorou muito a ser inserida no mercado de trabalho. Sempre foi vista como uma cuidadora, já que ela era mantida dentro de casa. Só conseguimos o direito de votar muito depois, após muita luta. Antigamente, havia uma permissão para que os homens matassem as mulheres por um possível adultério, que muitas vezes não existia. O mundo ainda é extremamente masculino”, lamenta a promotora.